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Uma Receita de Pacto


Postado por Angelim em 28/12/2009


Dia desses um violeiro novo chegou por aqui querendo saber se era verdade essa tal história de pacto com o tinhoso e se violeiro podia fazer isso sem vender a alma pro outro mundo. Por esse motivo contei pra ele a história de um amigo que faz tempo não vejo e que disse uma vez ter descoberto a receita do trato.


O homem foi o melhor violeiro que já passou por essas bandas e quando contava sua história nem bem-te-vi chegava perto.


Numa sexta-feira certa, depois da lua nova ter dormido tranqüila, você deve trocar as cordas de sua viola e deixar ela guardada em local bem escuro até que a lua fique cheia. Nessa hora, quando a noite se encher de luz, pegue sua viola, vá até o rio, entre em uma canoa e faça uma cruz nos dois lados d’água usando o remo. Jogue ele dentro d’água e solte as amarras da canoa.


Pra onde você vai? O rio te diz. Rio abaixo essa canoa vai serpenteando as águas, até que de repente ela começa a nadar bem devagarzinho, sem fazer barulho, sem quebrar água e repousa na margem esquerda do rio.


Só com sua viola na mão, salte da canoa e siga o rastro que a lua vai te mostrar. Depois de setenta e sete passos você vai chegar numa encruzilhada. Ali você vai ter medo. Muito medo. Não tem som, não tem luz, não tem nada. Por quase meia hora esse vazio vai te testar. Não olhe pra trás, pois o caminho que você seguiu não existe mais e você pode se perder pra sempre se sair correndo pro lado errado.


Do nada você começa a sentir um cheiro de enxofre e uma brisa quente vai bater em seu rosto. Pegue sua viola e deite-a no chão com as cordas para cima.


Vindo de lugar nenhum, um cão preto vai passar bem na sua frente. Ele vai te rodear de cabeça baixa e vai ficar girando entre você e a viola. Essa é a hora de você se ajoelhar e apoiar as mãos no chão.


Você sentirá uma dor muito forte. Será como se o fundo da terra estivesse quebrando seus dedos e querendo te puxar com força lá pra dentro. Suas mãos não se mexem, mas você consegue sentir seus ossos mudando de lado e uma dor aguda caminhando pela ponta dos dedos.


Um último suspiro, de dentro pra fora, e tudo termina como se nada tivesse acontecido. A noite vira dia e exausto de tanta provação, o violeiro repousa por sete dias sobre sua viola. Ao acordar tudo parecerá não ter passado de um longo sonho.


Assim contava esse grande violeiro. Dizem que hoje ele vagueia sozinho, com sua viola, pelas estradas do sertão e ao anoitecer, volta para a beira do rio, esperando nova canoa que irá guiá-lo rio abaixo, até sua próxima parada.


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